Vamos falar sobre enxaqueca?
- Bruna Pedrozo Festa
- há 2 dias
- 4 min de leitura
Enxaqueca é uma das queixas mais comuns encontradas na prática diária neurológica, afetando cerca de 12 a 15% da população geral, sendo mais frequente em mulheres. (1)
É um dos tipos de cefaléia (dor de cabeça) mais conhecidos e com grande impacto na qualidade de vida de quem apresenta. O pico de ocorrência é entre os 35 e 39 anos de idade e depois tende a diminuir no decorrer dos anos de vida, particularmente após a menopausa nas mulheres.
Existe um componente hereditário (genético), tendo os familiares de primeiro grau de indivíduos com enxaqueca de 2 a 4 vezes mais chance de ter enxaqueca do que indivíduos sem histórico familiar de primeiro grau. (2)

Sobre o diagnóstico e sintomas:
O diagnóstico da enxaqueca se baseia em uma história clínica compatível, exame físico neurológico e critérios diagnósticos. Não existem exames específicos para enxaqueca.
A dor de cabeça da enxaqueca é frequentemente, mas nem sempre, unilateral e tende a ter um caráter latejante ou pulsátil, principalmente à medida que a intensidade aumenta. A intensidade é moderada a grave e geralmente há piora com atividade física. Durante a dor ocorrem enjoos e/ou vômitos e pode haver fotofobia (sensibilidade aumentada à luz) e/ou fonofobia (sensibilidade aumentada a sons). Outros sintomas que podem aparecer são osmofobia (sensibilidade aumentada a odores) e alodinia (sensibilidade aumentada principalmente no couro cabeludo). (1)
O que ocorre no cérebro durante a enxaqueca?
É um processo complexo, mas em resumo podemos definir como uma combinação de alterações no funcionamento dos neurônios, liberação de fatores inflamatórios, ativação de nervos e mudanças na dinâmica vascular cerebral.
Em muitos casos, a enxaqueca está associada a uma “onda” de atividade anormal no cérebro, chamada depressão cortical alastrante, que se inicia em uma região e se espalha lentamente. Durante esse processo, as células cerebrais sofrem alterações temporárias no equilíbrio de substâncias como sódio, cálcio e potássio, o que interfere no funcionamento dos neurônios. Há também liberação de substâncias como glutamato e óxido nítrico, que modulam a atividade neuronal e vascular, além de ativarem o sistema trigeminovascular, especialmente o nervo trigêmeo. Esse processo leva à liberação de neuropeptídeos vasoativos, como o CGRP, contribuindo para a chamada inflamação neurogênica e a sensação de dor. Além disso, outras áreas do cérebro participam desse processo, como o tálamo, o hipotálamo e regiões do córtex, que estão envolvidas na modulação da dor e dos sintomas associados. (2)
Você já ouviu falar em enxaqueca com AURA?
Cerca de 25% das pessoas que têm enxaqueca possuem aura associada. Aura é o nome que se dá para sintomas neurológicos transitórios, principalmente visuais mas também sensoriais, motores, alterações na fala e sintomas de tontura/desequilíbrio. Tipicamente a aura ocorre antes da dor de cabeça, porém pode ocorrer ao mesmo tempo que a dor, após a dor ter iniciado e até mesmo porém mais raro, sem relação com a dor.
Aura visual: em um estudo recente (3) foram categorizadas diversas formas de alteração visual: visualização de: luz brilhante, visão turva, linhas em ziguezague, escotoma único - "mancha”, escotomas múltiplos, pequenos pontos brilhantes, pontos brancos, pontos coloridos, linhas coloridas, formas geométricas, visão como olhar através de ondas de calor, imagens deformadas, objetos oscilando, visão em mosaico, visão em túnel, perda visual unilateral ou total, visualização de borda extra nos objetos (efeito corona), entre outras.
Aura sensorial: sensação de formigamento unilateral na face ou braço.
Aura motora (rara): fraqueza muscular em um lado da face e/ou dos membros (classificada como enxaqueca hemiplégica*).
Aura da fala: disartria - "fala enrolada", afasia - dificuldade para nomear ou encontrar palavras específicas, troca de palavras durante a fala.
Aura sem cefaléia: aura isolada, sem a dor de cabeça (mais comum em pessoas com mais de 50 anos de idade com histórico prévio de enxaqueca com aura).
Aura do tronco encefálico (rara): vertigem, zumbido, visão dupla, alterações na coordenação e equilíbrio, diminuição do nível de consciência, alteração na audição.
*Os tipos de aura podem ocorrer isolados ou associados no episódio de enxaqueca.
*O diagnóstico da enxaqueca com aura precisa ser feito com atenção e cuidado para diferenciação de outras condições neurológicas como distúrbios cerebrovasculares (AVC) e também condições oftalmológicas.
A crise de enxaqueca apresenta 4 fases: (1)
PRÓDROMO - Sintomas que ocorrem cerca de 24 a 48h antes do início da dor de cabeça como: sensibilidade a luz e/ou som, fadiga, dor no pescoço, irritabilidade, euforia, bocejos, alterações no funcionamento intestinal, aumento do desejo por determinados alimentos como doces.
AURA- Sintomas neurológicos transitórios, ocorrendo geralmente antes ou durante a dor, durando de minutos até 1 hora.
DOR/ENXAQUECA - Dor moderada a intensa, durando de 4 a 72 horas.
PÓS-DROMO DA ENXAQUECA: A dor espontânea cessou mas movimentos súbitos da cabeça causam dor, há sensação de cansaço, variações no humor, dificuldade na concentração, durando de horas até 1 dia.
Se você apresenta sintomas de enxaqueca, com ou sem aura, realize uma avaliação neurológica, assim é possível estabelecer o diagnóstico e as formas de tratamento adequadas.
Para saber sobre medidas preventivas para enxaqueca acesse o link: https://www.brunapedrozofesta.com/post/prevenção-da-enxaqueca-intervenções-não-farmacológicas
Referências:
(1)-CUTRER, F. M. Pathophysiology, clinical manifestations, and diagnosis of migraine in adults. In: POST, T. W. (ed.). UpToDate. Waltham (MA): UpToDate, 2024. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/pathophysiology-clinical-manifestations-and-diagnosis-of-migraine-in-adults. Acesso em: 20 mar. 2026.
(2)-JOPPEKOVÁ, Ľubica et al. What does a migraine aura look like? A systematic review. The Journal of Headache and Pain, v. 26, n. 1, p. 149, 2025. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12210593/. Acesso em: 20 mar. 2026.
(3)- VIANA, Michele et al. Visual migraine aura iconography: a multicentre, cross-sectional study of individuals with migraine with aura. Cephalalgia, [S.l.], v. 44, n. 2, p. 3331024241234809, fev. 2024. DOI: 10.1177/03331024241234809. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38388359/. Acesso em: 20 mar. 2026.
*O material tem caráter informativo e não deve ser utilizado para realizar autodiagnóstico, autotratamento ou automedicação. Em caso de dúvidas, consulte sua médica/seu médico.




